Entrevista com Camila Dall’Agnol
- RAÍZES do Solo a Mesa
- 22 de fev.
- 5 min de leitura
Por Laura Costenaro

Camila Dall’Agnol é uma empreendedora bastante dinâmica e inquieta, atualmente à frente da Verve Destilaria, uma premiada marca de destilados localizada em São Bento do Sul, região norte do estado de Santa Catarina. Formada em marketing e com vasta experiência no setor de alimentos, Camila traz uma abordagem inovadora e estratégica para o mercado de destilados. Sua trajetória é marcada por uma dedicação incansável, um olhar atento às tendências de mercado e para as pessoas.
Entrevistadora: Quem é a Camila e como começou sua construção profissional?
Camila: Acho que falar um pouco da minha construção profissional ajuda a deixar mais claro quem é a Camila hoje, a Camila da Verve e só a Camila se misturam, então traçar essa construção ajuda a deixar de forma mais clara quem sou.
Sou filha de comerciantes e desde muito nova sempre tive contato com rodadas de negócios e vendas que meus pais faziam, não participando ativamente, mas estando perto e vendo como as coisas eram feitas e funcionavam, e eventualmente trabalhando para ajudar quando precisava em alguma das empresas. Cresci vendo essa força de trabalho diária e incansável dos meus pais para proporcionarem as melhores condições de vida para mim e meus irmãos e sei que isso molda um pouco a forma com que me relaciono com o trabalho hoje.
Com base nesse alto volume de trabalho de meus pais e nas muitas privações que isso gerava para nossa família, minha mãe tinha um restaurante e hotel, e meu pai tinha uma distribuidora de bebidas, isso fazia com que não houvesse finais de semana ou horários definidos, eu tinha certeza que eu não queria ser proprietária de nada e gostaria muito de trabalhar em algo sólido e seguro para balancear o que eu de fato planejava para a “vida adulta”. Por muito tempo cogitei fazer Arquitetura, o que acabou não fazendo sentido e acabei optando por fazer faculdade de Marketing.
Durante a faculdade comecei a trabalhar no departamento de marketing de uma indústria de papelão em Curitiba e apesar de ter aprendido muito não me via fazendo as atividades designadas do setor por muito tempo, assim acabei me desligando da empresa. Terminei minha faculdade, retornei a São Bento do Sul e cerca de seis meses depois retornei para Curitiba para uma nova oportunidade.
Comecei a trabalhar em uma Indústria que processa vegetais para grandes redes de fast food do mercado chamada Verduranet. Quando entrei na empresa, éramos quatro funcionários e havia muitas atribuições a serem feitas, pois éramos uma empresa ainda muito pequena, o que acredito que foi fundamental para meu desenvolvimento profissional.
Na indústria de vegetais trabalhei por onze anos e nela vieram os primeiros grandes resultados de transformá-la junto com os diretores em uma indústria que hoje emprega muitas pessoas, uma base sólida de clientes e um faturamento expressivo. Participei de várias rodadas comerciais e homologações de grandes redes de fast food, definições estratégicas, equipe de qualidade, estruturação da fábrica, contratações, cursos, manuais de qualidade e processos e auditorias nacionais e internacionais fizeram parte dessa trajetória. Isso me deu bagagem para entender um pouco mais de gestão e de como se monta e gerencia uma empresa. Acredito também que parte fundamental do bom desempenho foi sempre conseguir interpretar o ecossistema que as empresas estão inseridas de forma clara.
Entrevistadora: E como começou a jornada no setor de destilados com a Verve?
Camila: Pandemia! Vieram os desafios da pandemia e a necessidade de se reinventar no mercado para todo mundo, porém em uma indústria tão perecível como a de vegetais exigiu muito trabalho para deixar as coisas funcionando. Paralelo a isso, meu irmão já tinha uma cervejaria e durante os primeiros quinze dias da pandemia ele ficou imerso em casa organizando o que seria feito dentro da indústria dele. Ele decidiu fazer um curso de destilados para produzir gin para nossa família. A demanda por gin estava alta, o mercado de destilados nacionais sinalizava crescimento e ele fez o curso de forma despretensiosa, até me ligar e chamar para uma sociedade no mercado de destilados de uma pequena produção, foi quando as coisas começaram a desenrolar com a Verve.
Decidimos montar uma pequena destilaria e entender como funcionava o mercado. Com um investimento inicial pequeno, começamos a produzir gin e numerar garrafas para entregar aos nossos amigos. Os retornos sobre a qualidade da bebida estavam muito bons e isso nos fez pensar se não deveríamos nos dedicar 100% a isso. Fiz um processo de transição de dois anos, onde fui me tornando dispensável na Verduranet para ser necessária na Verve Destilaria.
Até o primeiro Congresso Raízes, eu ainda trabalhava nas duas empresas, mas agora estou 100% na Verve. A construção da Verve foi um processo de estruturação da indústria, marca, regulamentação de marca, definição da estratégia até o lançamento oficial em 2022. Os primeiros desafios foram entender o mercado e construir a marca. Percebemos que o foco de atuação deveria ser em bares e restaurantes, que é onde a construção de marca consegue ser efetiva e chegar no cliente final com propriedade.
Entrevistadora: Como você equilibra a vida pessoal e profissional nesse setor?
Camila: Essa é uma pergunta difícil, acho que vai além do setor de bebidas, mas da dinâmica de empreender mesmo. Hoje minha vida é muito voltada para o trabalho. Abro mão de várias coisas e momentos para construir a Verve e alcançar os objetivos traçados. As pessoas ao meu redor estão conscientes disso e sabem dessa dinâmica.Tento manter uma rotina quando estou em casa, mas eu viajo muito, o que interfere bastante no planejamento. Essa dedicação toda tem o objetivo de que em algum momento o ritmo diminua e possa equilibrar um pouco mais as coisas.
Entrevistadora: Quais são as lições que você aprendeu ao longo dessa trajetória?
Camila: Tratar bem as pessoas, ter consistência no trabalho, entregar sempre o que se promete e não enganar as pessoas são premissas básicas. Trabalhar como se todo dia fosse o primeiro dia é clichê, mas é pura verdade. A empresa, seja ela qual for, precisa crescer e aprender um pouco mais todo dia. A excelência no serviço prestado e olhar atentamente para as pessoas que trabalham conosco são fatores primordiais. A minha equipe, nunca se contentar com os "nãos" que do mercado e buscar formas de resolver as dores que os clientes trazem diariamente.
Entrevistadora: O que você vê de tendência no setor e como incorporar isso na Verve?
Camila: O mercado de destilados muda constantemente, há sempre novas tendências que são fomentadas pelas fabricantes de grandes marcas a fim de impulsionar uma bebida específica. Há uma mudança também no comportamento de consumo e novas gerações consumindo menos álcool, com isso coquetéis menos alcoólicos e bebidas sem álcool têm ganhado grande força no mercado. Os RTDs (Bebidas enlatadas) são uma crescente que tem representado uma parcela nesse mercado também, principalmente entre o público mais jovem.
Observamos com atenção todas essas tendências, sinalizamos e desenvolvemos novos produtos quando necessário, mas seguindo a linha do que acreditamos para a Verve desde o início, que é ser uma destilaria regional catarinense, que entrega excelentes produtos ao mercado sem abrir mão de qualidade, trabalhando com preços acessíveis a fim de ajudar na composição dos cardápios de bares e restaurantes. Estamos desenhando novos produtos e temos lançamentos planejados para os próximos dois anos, além de edições especiais de produtos.
Entrevistadora: Quais são suas influências e ídolos?
Camila: Meus ídolos e influências são as pessoas que me cercam. Meus pais, irmãos, amigos e colegas e ex-colegas de trabalho. Olho e admiro as pessoas que estão perto e que tenho trocas diárias.
Entrevistadora: Qual conselho você daria para quem quer empreender hoje no Brasil?
Camila: Esteja atendo aos números e dados da sua empresa! Trabalhe duro, aprenda, adapte-se e mude caso seja necessário. Aja e tenha coragem de mexer na rota das coisas quando algo der errado e não se prenda ao que foi projetado e não deu certo. Seja humilde para ouvir críticas. Na maior parte dos casos, só a gente sabe quando está errando.
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