PANC: Uma Nova Perspectiva para a Nutrição e Sustentabilidade
- RAÍZES do Solo a Mesa
- 16 de fev.
- 2 min de leitura
Por Irany Arteche
Sou nutricionista e mestre em Fitotecnia (UFRGS). Minha ligação com a comida vai além do consumo necessário e trivial. Comida é autonomia, critério, saúde, prazer, conhecimento, raiz e gratificação. Envolver-se com o mundo da comida e subverter
consensos e regramentos pode ser absolutamente gratificante. Com uma infância onde o chuchu virava doce e a parte branca da melancia era iguaria, meu olhar e agir eram pouco convencionais.Coordenei a Alimentação Escolar no RS por 4 anos, implementando ações inéditas de impacto nutricional e ambiental (como a pioneira Merenda Agroecológica) e percebi a importância de não somente conhecer o alimento, como também saber de onde vem e como foi produzido. Fui para a agronomia aprofundar os sistemas de cultivos e conheci o botânico Valdely Kinupp. Interagíamos nas disciplinas e a amizade se estabeleceu. Eu gostava de comidas diferentes e o Valdely sempre aparecia com uma planta nada usual para comer. Nós gostávamos de cozinhar, comer e pensar em produções/soluções principalmente agroecológicas. Resolvi fazer um projeto que se baseava na tese do Valdely “Plantas Alimentícias Não Convencionais da Região Metropolitana de Porto Alegre”, e para escrevê-lo (2008) abreviei o título com a sigla PANC. Ao ler percebi o fonema incrível (associando ao punk) que estava criado. Foi um tipo “guarda-chuva” que abrigaria termos pejorativos como erva-daninha, planta invasora etc.Para um melhor entendimento:As PANC compõem um grupo extenso de plantas que são desconhecidas, ou pouco conhecidas, subutilizadas ou negligenciadas na alimentação humana, no entanto essas plantas garantiram a existência do homem ao longo do tempo. São resistentes e resilientes, não necessitam de aditivos ou agrotóxicos e muitas ocorrem espontaneamente na natureza. Têm vasto potencial nutricional e gastronômico, proporcionam autonomia, valorização o resgate de culturas, além da sua utilização estar afinada ao conceito de sustentabilidade e de respeito à biodiversidade. Torná-las conhecidas ou reconhecê-las parece ser o maior desafio e precisa ser enfrentado.Os botânicos estimam que 10% das plantas existentes sejam alimentícias (isso representa milhares de plantas), ou seja, estreitamos o nosso repertório à poucas plantas cultivadas exaustivamente, em monoculturas. Como consequência enfrentamos uma séria degradação ambiental, prejuízos à saúde e uma monotonia alimentar baseada na repetição de ingredientes.As PANC sempre estiveram e estão ao nosso alcance, então por que não fazemos uso daquilo que nos beneficiaria? Por que estreitamos cada vez mais o nosso olhar, com desperdícios, em um exaustivo “Ctrl C Ctrl V”, desconsiderando a imensidão de alimentos que podemos dispor?Digo que a PANC da vez é o Pensamento Alimentar Não Convencional. Apesar das conveniências da modernidade, há uma infinidade de alimentos que estão disponíveis, bastando que o pensamento e o olhar se permitam mudar. Quanto ao paladar, este está em constante transformação e podemos adapta-lo em benefício da nossa saúde, da nossa identidade e da sustentabilidade.Um fato que tornou-se mantra para mim: “A comida precisa fazer bem ao corpo, à alma e ao ambiente”. Estamos no limite, é urgente que o jeito de existirmos, de nos alimentarmos, de mantermos os negócios e de interagirmos com a natureza mude. Abrir mão da felicidade? Não. A vida existe para ser feliz, mas de outra forma, essa é insustentável.

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