IA na Gastronomia: Como a Tecnologia Está Impactando o Setor
- há 10 horas
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Por Júlia Xavier

A tecnologia nas cozinhas profissionais
A tecnologia já integra as cozinhas profissionais há décadas, mas, nos últimos anos, ganhou um novo papel. Equipamentos como fornos combinados e termocirculadores tornaram-se essenciais em cozinhas do mundo inteiro. Ao controlar com precisão tempo e temperatura, esses dispositivos ajudam a preservar sabores, melhorar texturas e garantir uniformidade nos pratos — fatores que, segundo um artigo da Engefood sobre o conceito de cozinha 4.0, elevam o padrão da gastronomia em diferentes tipos de estabelecimentos.
A chegada da Inteligência Artificial
Agora, a chegada da Inteligência Artificial (IA) sinaliza uma transformação ainda mais profunda. Embora em estágio inicial, a IA já mostra capacidade de aprimorar operações, reduzir falhas e expandir a criatividade em cozinhas de alta gastronomia e redes de fast food, , como destacaram reportagens do Canaltech e da Plastici. (Canaltech; Plastici).
Essa evolução também está refletida nos próprios equipamentos: os fornos, por exemplo, não ficam para trás. A aceitação dos chamados fornos inteligentes, que aprendem com o uso diário e ajustam automaticamente tempo, temperatura e modos de preparo, vem crescendo rapidamente.
Marcas têm investido em modelos que se adaptam ao estilo de cada cozinha, prometendo mais eficiência e precisão nas receitas, segundo o CDO Times e o Foodservice Equipment Journal..
Exemplos internacionais de inovação
Na Europa, a IA já é parte do cotidiano de restaurantes, o Azurmendi, no País Basco, onde o chef Eneko Atxa utiliza a tecnologia para refinar a apresentação dos pratos e testar novas ideias.
Em entrevista ao El País, ele explicou: “Minhas equipes usam [a IA] para mil detalhes: encontrar ideias ou refinar a estética dos pratos.” Para Atxa, é uma ferramenta auxiliar em crescimento. “Mas acreditar que ela pode substituir um chef criativo, por enquanto, é ridículo”, concluiu.
Já na Coreia do Sul, pesquisadores da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), em colaboração com a empresa Woowa Brothers, desenvolveram o sistema YORI (Yummy Operations Robot Initiative). Esse robô é capaz de realizar tarefas culinárias complexas com alta precisão e de maneira autônoma. Projetado para automatizar processos na cozinha, o YORI oferece uma solução eficiente para a preparação de alimentos em um ambiente modular, conforme descrito na em artigo publicado o arXiv.
Em Chicago, Grant Achatz, do restaurante Next, está criando um menu de nove etapas, em que cada prato é elaborado com a ajuda de chefs fictícios gerados pelo Chat GPT, como “Jill”, cuja biografia mistura influências de Ferran Adrià, Jiro Ono e Auguste Escoffier. A inteligência artificial sugere combinações culinárias que Achatz adapta e transforma em pratos reais, segundo reportagem do The New York Times.
Na mesma cidade, Jenner Tomaska, do Esmé, usou o Chat GPT para reinventar pratos tradicionais e com peso histórico de outras culturas, criando interpretações inovadoras. O chef classificou o resultado como “estranho, mas intrigante”, mostrando como a inteligência artificial pode expandir as possibilidades criativas e proporcionar novos olhares na elaboração de receitas, de acordo com a Reporter Gourmet em 2025.
Ferramentas criativas
Além desses exemplos práticos, outras ferramentas surgem para expandir ainda mais o potencial criativo da IA na gastronomia. Soluções como o RecipeGPT sugerem combinações de ingredientes com base em dados históricos e tendências de consumo, enquanto o Chef GPT desenvolve receitas personalizadas, considerando ingredientes disponíveis e restrições alimentares.
Apesar dos avanços proporcionados por essas ferramentas, muitos profissionais resistem à ideia de que máquinas possam replicar a intuição humana. Segundo a Food Connection, a IA não substitui a criatividade, mas acelera a geração de ideias e a prototipagem de novos produtos ao identificar padrões de consumo em grandes volumes de dados (Food Connection). Para a chef Dominique Crenn, “a comida não pode ser substituída pela IA: ela carrega o conhecimento dos nossos ancestrais(...)”, disse em entrevista à Reporter Gourmet, em 2025.
Hiper Personalização
A IA generativa também está transformando a relação dos restaurantes com os clientes. Ao analisar preferências e dados de saúde, algoritmos podem sugerir pratos personalizados, ajustar ingredientes e porções, e até apoiar dietas individualizadas. Essa abordagem aumenta fidelidade e engajamento, além de abrir espaço para inovação em produtos, como fez a suíça Vivi Kola AG, que usou IA para criar seu refrigerante vegano VIVI Nova, como noticiaram a Forbes e o portal FoodTechGulf em 2025.
Otimização e gestão
O impacto da IA também se estende à gestão. De acordo com um artigo da Loman AI, a empresa implementou um sistema de controle de estoques em mais de 300 unidades da rede Fran Global.
Em oito meses, a solução reduziu os custos com compras em 11%, o desperdício em 35% e gerou uma economia anual de aproximadamente US$1,98 milhão.
Outro exemplo, é a Domino 's Pizza, que utiliza algoritmos para prever a demanda e ajustar, em tempo real, a produção e a distribuição de ingredientes. Segundo a Microsoft News, isso aumentou em 72% a precisão de suas previsões e melhorou a experiência do cliente.
Além disso, ferramentas como Slang.ai e Presto Voice automatizam pedidos e reservas, enquanto plataformas como a XtraCHEF monitoram estoques em tempo real, otimizando negociações com fornecedores.

O crescimento da IA no Brasi
No Brasil, a adesão também cresce. Segundo pesquisa da Abrasel, 28% dos bares e restaurantes já utilizam IA em alguma etapa da operação, e 17% empregam a tecnologia para reformular cardápios, definir preços e desenvolver receitas.
Na hotelaria, conforme o site Brasilturis, a Iberostar Hotels & Resorts adotou a IA da Winnow em 48 de seus mais de 100 hotéis, incluindo o Iberostar Praia do Forte na Bahia. Em seis meses, a iniciativa reduziu em 28% o desperdício de alimentos e economizou o equivalente a 1,5 milhão de refeições — com meta de 5,3 milhões até o fim deste ano. A medida também evitou a emissão de 2.500 toneladas de CO₂.
Desafios e riscos
Apesar dos avanços, a adoção da IA também impõe desafios. A automação pode eliminar funções operacionais, afetando principalmente trabalhadores com menor qualificação.
Pequenos restaurantes, por sua vez, enfrentam dificuldades para investir em soluções tecnológicas sofisticadas. Além disso, como destacado por especialistas, questões como privacidade, uso ético de dados e dependência tecnológica exigem regulamentação e práticas responsáveis para garantir a sustentabilidade do setor, uma preocupação crescente no futuro da gastronomia, conforme apontado por The Verge e Wired.
O futuro da IA na gastronomia
Ainda assim, mesmo diante de obstáculos, o avanço tecnológico parece irreversível. A IA está se consolidando como uma aliada estratégica nas cozinhas, aprimorando processos e permitindo que os chefs se concentrem naquilo que fazem de melhor: criar experiências gastronômicas memoráveis — agora, com uma ajudinha digital.
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