O tempo como principal ingrediente da vida e da cozinha
- há 3 horas
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Por Gabriel Aguilar

As percepções sobre nossa vida e o mundo estão sempre mudando, acompanhando todas as transformações que fazem parte da nossa caminhada. Entre tantas verdades que me acompanham, talvez a maior seja esta: para mim tudo está intimamente ligado ao tempo.
Passado, presente e futuro são conduzidos, milimetricamente, pela ação do tempo. E não é à toa que ouvimos com frequência, hoje e em outras épocas, que “o tempo está passando”. Atualmente, essa frase ganha um peso ainda maior, porque a velocidade com que sentimos o tempo nos dá a sensação de desequilíbrio, de uma vida acelerada demais.
Mas, na cozinha, o tempo deixa de ser inimigo. Ele é ingrediente, ferramenta e maestro. Um polvo, por exemplo, não se transforma em um prato memorável sem o ritmo preciso do cozimento; um fermento não cria a textura perfeita sem horas de atenção; um molho não revela todas as suas camadas sem paciência e cuidado no preparo. Ou seja, cada processo exige respeito ao tempo e a seu papel, assim como cada etapa da vida exige dedicação e presença.
É ele que constrói sabor, textura e aroma. Cada prato que crio e sirvo em meus restaurantes carrega consigo horas de cuidado, decisões e testes, em que o tempo molda a experiência final do cliente. Não é apenas técnica: é observar, sentir, perceber e deixar que o ingrediente se revele, por si só, como verdadeiro protagonista.
Cozinhar, assim como viver, é respeitar o tempo. É entender que nada se apressa sem perder valor. É perceber que cada instante carrega sua própria verdade e nos oferece a oportunidade de criar algo que transcende o imediato. E, assim, cada prato se torna uma narrativa: a costela que passou horas em baixa temperatura, o peixe que descansou na maturadora, a espuma que só se forma depois de batidas e repouso. Todos são exemplos de como o tempo me guia na técnica e no sabor.
No final, o tempo é o condutor silencioso de toda a beleza que conseguiremos um dia alcançar, seja em um prato, seja na vida. Sinto que ele não apenas passa: ele transforma. E, nas nossas cozinhas, é essa transformação que buscamos: ingredientes elevados à potencia máxima, sabores que evoluem a cada mordida, experiências que ficam na memória.
Porque, assim como na vida, é o tempo que nos ensina a perceber, a respeitar, a criar e a surpreender.






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