Brasil á mesa do Mundo
- há 12 minutos
- 4 min de leitura
Por Julia Xavier
Prêmios internacionais, biodiversidade estratégica e turismo em expansão consolidam a gastronomia brasileira como presença contínua no cenário mundial. Em junho de 2024, a chef paulistana Janaína Torres foi anunciada como Melhor Chef Feminina do Mundo pelo World 's 50 Best Restaurants, uma das listas mais acompanhadas da gastronomia global (TheWorlds50best). Um ano depois, o restaurante carioca Lasai estreou na lista principal do mesmo ranking, na 28ª posição (TheWorlds50best). No mesmo período, o Guia Michelin expandiu sua seleção no Brasil ao maior número de restaurantes já registrado no país (Guide Michelin), e o turismo internacional encerrou 2025 com recorde histórico de chegadas, segundo a Embratur (Embratur).

A sucessão de dados sugere que o atual interesse global pela gastronomia brasileira não é um fenômeno pontual, mas uma presença que se consolida de forma contínua. O Michelin retomou sua cobertura no Brasil em 2024 após interrupção durante a pandemia. Na primeira edição do seu retorno, 140 restaurantes foram recomendados. Em 2025, o número subiu para 149, com cinco casas de duas estrelas e vinte de uma estrela. Entre os restaurantes com duas estrelas estão D.O.M., Tuju e Evvai, em São Paulo, além de Lasai e Oro, no Rio de Janeiro (Guide Michelin). Na lista estendida do World 's 50 Best (51–100), Tuju, Oteque, A Casa do Porco e Evvai também apareceram (TheWorlds50best). A presença simultânea em diferentes rankings indica estabilidade de reconhecimento, um critério relevante em um setor onde oscilações são frequentes.

O fenômeno brasileiro dialoga com movimentos que reposicionaram outras cozinhas nacionais nas últimas décadas. A Nova Cozinha Nórdica, formalizada em 2004 por chefs como René Redzepi e Claus Meyer, construiu reputação internacional com base em ingredientes locais, técnicas ancestrais e identidade territorial (Nordic Co-operation). O Peru seguiu trajetória semelhante (AS/COA), e em 2025, o restaurante Maido, em Lima, foi eleito o melhor do mundo pelo World 's 50 Best, consolidando a gastronomia peruana como referência latino-americana (TheWorlds50best). O Brasil, com presença crescente nas listas principais e estendidas, passa a integrar esse grupo de países cuja culinária se torna pauta permanente.
Parte dessa visibilidade se ancora em características estruturais do território brasileiro. O país abriga biomas como Amazônia, Cerrado, Pampa e Mata Atlântica, reconhecidos pela diversidade biológica (Embrapa). Da Amazônia, ingredientes como tucupi, jambu e cupuaçu passaram a fazer parte de menus degustação e cozinhas de referência (Guide Michelin). Do Cerrado e do Sul, baru, baunilha do cerrado, pinhão e ostras também ganham espaço em criações e pautas gastronômicas (Diário do Comércio; Entre Nós; Jornal Opção). Ao mesmo tempo, o Brasil permanece entre os maiores produtores e exportadores globais de soja, carne bovina, açúcar e café, condição que o posiciona simultaneamente como potência agrícola e como laboratório de discussões sobre rastreabilidade, sustentabilidade e identidade territorial.

Chefs brasileiros têm atuado como mediadores entre a biodiversidade e a alta gastronomia. Alex Atala foi um dos primeiros a formalizar esse papel: à frente do D.O.M., mantém duas estrelas Michelin e coordena, desde 2013, o Instituto ATÁ, dedicado à valorização de ingredientes nativos e à articulação entre produtores e restaurantes urbanos (Instituto Atá). Desde então, o movimento se espalhou por diferentes regiões do país. No Rio de Janeiro, o Lasai estrutura seu menu a partir de hortas próprias e sazonalidade estrita (TheWorlds50best). Em Santa Catarina, Janete Borges representou Florianópolis no Intercâmbio das Cidades Criativas da Gastronomia pela UNESCO, em 2025, com prato elaborado a partir de ostra local, alga marinha e halófitas (FLORIPAMANHA). Esses modelos inserem cadeias curtas de fornecimento no centro do discurso gastronômico contemporâneo.

Essa presença global tem outro motor: os quase cinco milhões de brasileiros que vivem fora do país. Dados do Ministério das Relações Exteriores indicam que 4,9 milhões de brasileiros viviam no exterior em 2023, concentrados principalmente nos Estados Unidos, Portugal, Paraguai, Reino Unido e Japão (Gov.br). Parte dessa difusão ocorre de forma espontânea, por meio de restaurantes e negócios alimentares mantidos por essas comunidades em diferentes países. Antes dos prêmios e rankings, já havia uma cozinha brasileira sendo praticada e conhecida mundo afora.

O turismo reforça esse movimento. Entre janeiro e maio de 2025, o Brasil recebeu 4,8 milhões de visitantes estrangeiros, crescimento de 49,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo a Embratur. O resultado anual atingiu 9 milhões de turistas, superando a meta estabelecida pelo Plano Nacional de Turismo (Embratur). A gastronomia aparece como componente importante da experiência de viagem, ampliando a visibilidade de restaurantes e ingredientes regionais (Agência Gov).
O momento, no entanto, apresenta desafios. A cadeia produtiva de ingredientes nativos ainda enfrenta limitações de escala, rastreabilidade e certificação. E o Guia Michelin mantém avaliação somente em São Paulo e Rio de Janeiro (Guide Michelin), deixando de fora tradições regionais relevantes para a diversidade gastronômica brasileira.
A sucessão de prêmios, dados de turismo e presença recorrente em rankings indica que a gastronomia brasileira ultrapassou o estágio de descoberta pontual. O que se coloca agora não é se o Brasil está no mapa gastronômico global, mas como converter visibilidade em estrutura produtiva, formação qualificada e atenção aos ingredientes que sustentam tudo isso. A permanência do país no centro da conversa dependerá menos de novos títulos e mais da capacidade de transformar reconhecimento em condições para sustentá-lo.

Comentários