Cacau em Colapso: a Crise que Ameaça o Chocolate Bean To Bar no Brasil
- 24 de fev.
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Por Julia Xavier

O mercado global do cacau enfrenta sua pior crise em décadas, resultado de uma série de fatores que combinam pragas, condições climáticas adversas e limitações estruturais nas principais regiões produtoras. Costa do Marfim, Gana, Nigéria e Camarões respondem por cerca de 65% da produção mundial (G1, 2025).
Essa escassez histórica fez disparar os preços internacionais do cacau, que atingiram o maior valor registrado em 60 anos, pressionando a cadeia produtiva do chocolate em escala global (Mercado do Cacau, 2025).

No Brasil, apesar dos avanços na produção, o setor nacional ainda não consegue suprir a crescente demanda interna. Dados da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) indicam queda de 14,4% no primeiro semestre de 2025 no volume de moagem, o menor nível registrado nos últimos nove anos (Forbes, 2025). A consultoria StoneX projeta uma recuperação moderada para a safra 2025/26. No entanto, ressalta que o equilíbrio ainda depende do clima e do controle de doenças como o vírus da vagem inchada (CSSVD). No Brasil, espera-se aumento de 10,2% na produção, favorecida por investimentos mais rápidos e maior acesso a crédito. Ainda assim, o mercado segue pressionado por custos altos e exigências de rastreabilidade que demandam muita burocracia e elevam os custos de operação (Notícias agrícolas, 2025).

Mesmo utilizando apenas cacau nacional e rastreável, marcas bean to bar enfrentam escassez e aumento de custos diante da crise climática e da valorização global do grão. O modelo artesanal, baseado em grãos selecionados, mínima intervenção industrial e ausência de aditivos, oferece pouca margem para adaptações (Bean to Bar Brasil, 2025).

Na Bahia, a irregularidade das chuvas tem afetado a produtividade das lavouras. “São plantas resilientes, mas que são muito sensíveis à falta d’água”, afirma Tuta Aquino, vice-presidente da Associação Bean to Bar Brasil. Para ele, “essa crise se iniciou no cacau e em algum momento vai chegar no chocolate” (Gama Revista, 2024).
Além dos efeitos climáticos e da alta global do cacau, o segmento bean to bar no Brasil também enfrenta pressões estruturais no mercado interno. A Associação Nacional dos Produtores de Cacau (ANPC) critica a entrada de grãos importados com isenção fiscal, via regime de drawback, que amplia artificialmente a oferta e pressiona para baixo os preços pagos aos produtores locais — justamente os que abastecem a cadeia artesanal (Notícias Agrícolas, 2025). Já a Associação das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) alerta que a possível aplicação de uma tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre derivados brasileiros compromete exportações e gera incertezas logísticas e tributárias (Canal Rural, 2025).Embora não utilizem cacau importado, as marcas bean to bar são diretamente impactadas pela desvalorização do grão nacional, o que compromete a oferta de matéria-prima de qualidade e eleva os custos de produção.
A crise do cacau reacende o debate sobre a cadeia produtiva do chocolate no Brasil, especialmente para o segmento bean to bar, que aposta na qualidade e na origem como diferenciais. O equilíbrio entre produção nacional, sustentabilidade e inovação será determinante para enfrentar os próximos anos e consolidar o crescimento do chocolate brasileiro no mercado mundial. A crise é do cacau, mas o impacto atravessa toda a cadeia, da produção ao consumidor.
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