O Futuro do Terroir: Tradição versus um mundo dominado pelo clima e pela tecnologia
- RAÍZES do Solo a Mesa
- há 1 dia
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Por Diogo Fillus

O terroir, essa mítica combinação de solo, clima e práticas humanas, há séculos é celebrado como a alma dos grandes vinhos. Mas será que essa noção quase romântica ainda faz sentido em um mundo onde o aquecimento global e a tecnociência ditam as regras? Em plena era da globalização, o terroir corre o risco de ser reduzido a um discurso de marketing, esvaziado de significado e incapaz de resistir à padronização crescente dos vinhos.
A verdade incômoda é que o terroir tradicional está sob ataque, não por maldade de alguns, mas por força das circunstâncias. Regiões consagradas como Borgonha, Bordeaux e Rioja já não conseguem escapar dos impactos do clima extremo. Uvas amadurecem precocemente, alterando profundamente o perfil sensorial dos vinhos. Em paralelo, áreas antes impensáveis para a vitivinicultura, como o sul da Inglaterra ou até partes da Escandinávia, começam a ganhar destaque. A fronteira entre o exótico e o tradicional está se desfazendo, e com ela, o monopólio simbólico de certas regiões.
Dados não faltam, como o estudo da Universidade de Bordeaux publicado em março de 2024, que revelou que a colheita das uvas foi antecipada em até três semanas nas últimas décadas. Isso muda tudo: da estrutura química do vinho ao seu posicionamento de mercado. Enquanto isso, eventos extremos, como geadas em plena primavera ou secas impiedosas, colocam produtores históricos de joelhos.
Outro estudo publicado na Revista Nature, também em 2024, alerta para as consequências das mudanças climáticas nas regiões vinícolas tradicionais. Pesquisadores projetam que, com o aumento global da temperatura superior a 2°C, até 90% das áreas vinícolas costeiras e de planície na Espanha, Itália, Grécia e no sul da Califórnia poderão se tornar inadequadas para a produção de vinhos de qualidade até o final do século. Isso se deve a secas intensas, ondas de calor mais frequentes, níveis alterados de precipitação, umidade, radiação e CO₂ que comprometem a sustentabilidade econômica dessas regiões.
A resposta? Adotar uvas “estrangeiras” mais resistentes ao calor. Regiões como Bordeaux aprovaram o cultivo de variedades como Touriga Nacional, Arinarnoa, Marselan e Alvarinho, visando preservar a qualidade dos vinhos diante das novas condições climáticas. É a ciência salvando a taça, mas a que custo? Estaríamos diante da morte silenciosa das identidades vinícolas tradicionais? O terroir está sendo reprogramado em laboratório?
A tecnologia, por sua vez, entra como uma faca de dois gumes. Artifícios avançados de vinificação, como sensores climáticos, colheitas noturnas, porta-enxertos mais adaptados, fermentações controladas e manipulações aromáticas, prometem “preservar” o estilo do vinho e ajudam a manter características essenciais de qualidade como a acidez e os aromas, mas também nos afastam da espontaneidade que o terroir propõe. Em muitos casos, o “vinho de terroir” se torna uma construção altamente manipulada, onde a natureza é apenas coadjuvante.
Especialistas e enólogos defendem a adaptação como necessária, principalmente em países emergentes nesta área, como o Brasil, onde a tradição ainda está sendo construída. Mas críticos alertam que ao ceder espaço para outras variedades, o vinho corre o risco de virar uma commodity disfarçada de autenticidade. A diversidade e singularidade dos produtos podem estar sendo substituídas por uma padronização global disfarçada de inovação.
E o mercado? Continua valorizando o storytelling do terroir, mesmo quando já não representa a realidade. Vinhos com discursos românticos, mas com práticas industriais pesadas, inundam as prateleiras. A autenticidade virou uma narrativa e não uma garantia.
Está na hora de parar de tratar o terroir como um dogma intocável. Isso não significa abandoná-lo, mas sim repensá-lo com honestidade. O terroir do século XXI talvez seja menos sobre geografia e mais sobre escolhas conscientes, ética na adaptação, transparência na tecnologia e respeito pela diversidade cultural do vinho.
Em suma, este é um campo de batalha entre tradição e inovação, entre romantismo e pragmatismo. Sua sobrevivência depende menos de preservar o passado e mais de reinventar o presente com ética, transparência e, talvez, uma boa dose de humildade.
A pergunta que fica é: estaremos prontos para aceitar um “novo” terroir - sem fronteiras, híbrido e fluido - ou vamos continuar fingindo que nada mudou?
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