Uma Reflexão sobre Cultura, Consumo e Identidade
- 24 de fev.
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Por Esteban Samuel Ortega Costilla

A maneira como as bebidas alcoólicas são produzidas, comercializadas e consumidas reflete a natureza de uma sociedade e suas transformações ao longo do tempo. A coquetelaria envolve o estudo, desenvolvimento e serviço de bebidas alcoólicas e não alcoólicas combinadas, revelando como cultura e consumo se entrelaçam. Entender a coquetelaria e a história da cachaça nos ensina algo maior: a maneira como as nações estruturam suas economias e políticas de integração pode ter impacto direto na valorização de produtos e culturas locais.
Praticamente desde a sua origem, a cachaça foi estigmatizada como a bebida das classes mais baixas, incluindo escravos e trabalhadores rurais, resultando na priorização de preços baixos e produção massiva. Variações significativas na forma e na qualidade da produção agravaram essa realidade. No entanto, essa massificação permitiu a predominância da cachaça no Brasil e criou um apego emocional que foi crucial para a sua inserção em espaços culturais. Segundo o MAPA, em 2022, apenas 1% a 2% da produção da cachaça era exportada. Ou seja, o consumo nacional é altíssimo.
A “síndrome de vira-lata” é a tendência de desvalorizar o que é nacional e supervalorizar o que vem de fora, assumindo que o Brasil é, por definição, inferior em cultura, capacidade técnica, inovação e sofisticação. Mas há dualidade nisso. Existe liberdade para criticar e menosprezar aspectos nacionais, porque é “nosso” e há sentimento de pertencimento, porém, com as críticas vindas de fora, o instinto de defesa da identidade coletiva surge, mesmo que internamente essa identidade seja constantemente questionada. As ações individuais agravam ou melhoram esta situação, quando somadas.
No nosso sistema econômico, qualquer participante do mercado pode influenciar o fluxo de capital — e os profissionais da coquetelaria, como a maioria dos trabalhadores, atuam simultaneamente como oferta e demanda e são capazes de moldar esse fluxo. O bartender tem duas escolhas: ser um agente ativo que molda o mercado ou uma máquina de replicar receitas. O primeiro constrói valor; o segundo apenas o repete.
No dia a dia, isso significa escolher conscientemente de quem comprar, priorizando produtores locais e incentivando-os a aprimorar processos e inovar. Significa estudar cachaças, bitters, frutas e fermentados brasileiros com o mesmo rigor dedicado a gin ou bourbon, avaliando insumos nacionais e importados por critérios objetivos — perfil sensorial, custo-benefício, versatilidade — sem preconceitos.
Significa também explicar ao cliente as escolhas por trás de um coquetel, transformando-o em consumidor consciente que exige mais qualidade. Se um estrangeiro desmerecer um ingrediente local, responder com segurança técnica, sem agressividade nem submissão. E, acima de tudo, criar coquetéis autorais que usem produtos nacionais de forma sofisticada, não caricata.
Quando o bartender assume esse papel, ele não só melhora seu próprio trabalho — ele ajuda a redefinir o lugar da coquetelaria brasileira no mundo.
Valorizar a cachaça não é apenas defender um destilado; é reconhecer um patrimônio cultural e econômico que carrega séculos de história e potencial para o futuro. Cabe a produtores, bartenders, proprietários e consumidores abandonar preconceitos e adotar critérios de qualidade, explorando toda a diversidade e sofisticação que a bebida pode oferecer. Quando tratamos a cachaça com o respeito e a seriedade que ela merece, deixamos de vê-la como produto “menor” e passamos a enxergá-la como o que sempre foi: um símbolo legítimo da excelência brasileira.
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